quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Entrevista: Mana-sama para a revista ROCK'N'READ edição 77

 A entrevista abaixo foi concedida por Mana-sama à revista Rock'n'Read e a tradução foi encomendada a uma amiga minha que atualmente reside no Japão. Ela comprou a revista para mim e traduziu diretamente do original. Aproveite!

ATENÇÃO: Não reproduzir sem solicitar autorização antes!




“A verdade do 26º ano”

Mana – Moi dix Mois, MALICE MIZER

Perfil & Informação
Nascido em 19 de março. Guitarista da banda MALICE MIZER, formada em 1992. Após as atividades da banda terem sido pausadas no ano de 2001, iniciou as atividades com o Moi dix Mois. No dia 8 de setembro (sábado) realizará o show “Deep Sanctuary VI – MALICE MIZER 25th Anniversary Special” na casa de shows TOYOSU PIT. Mana, Kozi (g) e Yu~ki (b) receberão no placo os três roadies da banda que se apresentarão como vocalistas, o baterista Sakura, que foi o professor de bateria de Kami, e juntos farão uma apresentação especial como MALICE MIZER Special session.

www.malice-mizer.co.jp
www.moidixmois.net

No mês de setembro em TOYOSU PIT, num evento organizado pelo Moi Dix Mois, a lendária banda MALICE MIZER fará uma apresentação especial para comemorar seus 25 anos de formação. Apesar de ser possível dizer que se trata de um revival de uma noite da banda, a verdade é que o MALICE MIZER foi formado no ano de 1992. Já se passaram 26 anos desde a formação da banda e este será o primeiro evento realizado para comemorar o aniversário do grupo durante todos esses anos. Qual seria a razão para que esse show de aniversário fosse realizado só agora? O lider da banda, Mana, nos conta toda a verdade por de trás desse acontecimento.

-Fazem 13 anos desde da última vez que você apareceu nessa revista (edição de julho de 2005). Creio que muitos leitores não saibam que o MALICE MIZER completou 25 anos desde a sua formação. O MALICE MIZER é uma banda que até hoje tem muitos seguidores apaixonados, como o Kiryuin Sho (Golden Bomber, capa dessa edição da ROCK AND READ). Você ainda costuma escutar as pessoas falando coisas como “eu gostava do MALICE MIZER” ou “o MALICE MIZER foi minha inspiração”?

Mana: Sim, escuto.

-Você fica feliz quando escuta essas coisas?

Mana: Fico feliz de verdade. Muitas pessoas próximas de mim já me falaram coisas assim antes, como os roadies que acompanharam o MALICE e que vão participar do “Deep Sanctuary IV” no dia 8 de setembro – o Ishii Shuuji (cali≠gari/GOATBED), KAMIJO (Versailles) e o Hitomi (umiyuri). Eles disseram que o MALICE MIZER tinha impactado a vida deles e que por isso queriam ser roadies da banda.

-Eu também fui impactado pelo MALICE MIZER. Há muitos anos atrás, quando eu trabalhava na editoração de uma revista de música, me colocaram como o responsável por fazer a cobertura do MALICE MIZER e eu fui assistir o último show indies de vocês no Shibuya Koukaido. Foi a primeira vez que eu vi o MALICE ao vivo e digamos que eu levei um choque muito maior do que eu esperava. Foi algo do tipo “agora eles estão voando!” e “nossa, eles estão dançando!” (risos).

Mana: A época em que o MALICE MIZER foi fundado coincidiu com a época que o gênero Visual Kei estava se estabelecendo. Mas, acho que o MALICE era mais do que uma banda exótica, estava mais para uma grande aberração, não é?

-Apesar que desde antes do MALICE MIZER já haviam artistas como o Kome Kome Club e Seikima II, que tinham visuais impactantes e perfomances chamativas.

Mana: Sim, mas eles são de um gênero diferente do MALICE MIZER, né.

- Creio que no caso do Kome Kome e Seikima II, os responsáveis pelos instrumentos sempre ficavam focados apenas em tocar até o fim do apresentação. Uma banda em que os guitarristas ficavam sem tocar para poder dançar provavelmente foi algo inédito (risos). O MALICE foi fundado por você e pelo Kozi, mas qual era a ideia original de vocês quando vocês decidiram criar a banda?

Mana: Na época, a base do cenário visual kei já tinha começado a ficar definida, mas nós queríamos fazer algo diferente das outras bandas. Como eu e o Kozi seríamos os guitarristas, eu pensei se havia algum modo de tentar reproduzir o som do cravo na guitarra, já que eu sempre gostei de música clássica. Eu conversei com o Kozi sobre essa minha ideia e nós decidimos então criar um efeito de som que fosse parecido com o de dois cravos sendo tocado juntos. Para obter isso, nós não podiamos fazer bend na guitarra, nem usar outras técnicas típicas para tocar rock e tocávamos as nossas guitarras cada qual em monotom, tentando mesclar os sons de um jeito mais complexo.

-Seu pai era professor de música e desde pequeno você já gostava de música clássica, não é?

Mana: Sim. Na minha casa só tocava música clássica. Não sei se por influência disso, eu passei a gostar de música de igreja, aquelas músicas que tocam em missas. Por essa razão eu também tive a ideia de colocar nas nossas músicas o som que o órgão de tubos faz.

-Para uma banda de rock, esse tipo de composição é bastante original.

Mana: Para obter o som o mais próximo do que eu queria, nós usávamos um sintetizador de guitarra. Naquela época já havia sintetizadores de guitarra e algumas bandas já se arriscavam de vez em quando com esse tipo de apetrecho. Não existia wireless e nós tinhamos que ligar a guitarra e o sintetizador através de cabos, então ainda era um acessório em desenvolvimento. Geralmente, todo guitarrista quer andar e correr livremente pelo palco, mas com o sintetizador de guitarra nós não tinhamos essa liberdade. Eu não gostava de não poder andar livremente, mas somente desse jeito eu conseguia obter o som que eu queria. Além disso, nós tinhamos várias restrições na parte sonora também. O sintetizador captava o som que nós tocávamos na guitarra com atraso, então nós tinhamos que tocar a nota mais rápido para que houvesse tempo do sintetizador fazer a conversão e o ritmo da música não ser alterado. Como músico, era uma situação bastante complicada.

-Naquela época ainda não havia muitas bandas que usavam sintetizadores de guitarra de forma generalizada como vocês. De onde surgiu a ideia de usar esse tipo de acessório?

Mana: Naquela época nós não ouviamos falar sobre inserir sons digitalmente como agora. Eu só queria uma maneira de poder reproduzir o som do cravo e do órgão de tubos e um dia acabei descobrindo que era possível fazer isso usando um sintetizador de guitarra.

-Quando a banda foi formada em 1992, o uso da internet não era tão difundido como agora. Como você ficou sabendo, naquele tempo, sobre o sintetizador de guitarra?

Mana: Naquele tempo eu lia revistas de música loucamente. As que eu lia do começo ao fim como se fosse uma biblia eram a “FOOL'S MATE” e a “Rockin'f”, mas eu também lia outras como a “Young Guitar” e ficava sempre de olho nos anúncios das marcas de guitarra que apareciam nessas revistas. Foi olhando esses anúncios que eu descobri o sintetizador de guitarra. Quando eu comprei um e finalmente consegui reproduzir o som do órgão de tubos e do violino na guitarra, eu fiquei emocionado. O som saia com atraso e era necessário conectar tudo com cabos, então havia muitos inconvenientes, mas eu acabei optando por usar o sintetizador de guitarra mesmo assim.

-Naquele tempo não se ouvia falar muito sobre inserir sons digitalmente, mas já havia bons sintetizadores em forma de teclado. Por que você não optou por usar um teclado ao invés do sintetizador de guitarra?

Mana: Isso é a parte complicada. Eu cismei que numa banda de rock não poderia haver teclado ou ela não seria uma banda de rock de verdade. Apesar de eu ter decidido que nós não iamos tocar as nossas guitarras do jeito convencional, eu ainda assim sentia que o MALICE MIZER era uma banda de rock. De certa maneira, era uma contradição (sorriso amarelo). No Japão e mesmo no exterior há muitas bandas que optam por sintetizadores e teclados, mas isso nunca foi uma opção para mim.

-E quanto ao planejamento do palco? Quando eu assisti vocês pela primeira vez no Shibuya Koukaido, vocês já tinham condições de elaborar cenários e efeitos especiais. Em qual momento da criação da banda vocês optaram por roupas e ambientação no estilo europeu?

Mana: Desde o começo da banda nós já tinhamos decidido pela europa da idade média como ambientação. Com base nisso, nós decidimos elaborar não somente as músicas, mas também as nossas roupas com o objetivo de que elas contassem uma história. Bastava que nós tocassemos de acordo com essa história para que as pessoas pudessem enxergar melhor o mundo que nós queriamos representar. Eu pensava que ao invés de simplesmente só tocar, seria mais interessante fazer uma perfomance com um aspecto teatral para que quem estivesse assistindo pudesse imaginar na sua cabeça a história que queriamos contar. Por isso eu decidi desde o começo colocar diversos elementos teatrais nas perfomances.

-Ouvi falar que vocês chegaram a receber diversas reclamações das casas de show por terem usado elementos do teatro em suas perfomances...

Mana: Sim, porque nós usávamos sangue artificial, glitter dourado e outras coisas que acabavam se espalhando no chão. Se eu não me engano, uma vez recebemos uma reclamação porque o sangue artifical acabou caindo nas pessoas da plateia. Outra vez, foi porque algumas pessoas que estavam assistindo o show não conseguiram tirar o glitter dourado que caiu no rosto delas. Toda vez que nós faziamos um show, sempre dava algum problema. Mas mesmo assim, nós sempre limpávamos com cuidado todas as vezes. Quando usávamos sangue artificial, por exemplo, sempre colocávamos uma lona no palco. Quando iamos fazer show em conjunto com outras bandas, nós também sempre imploravámos para ser os primeiros a tocar (risos). Geralmente as pessoas não querem ser os primeiros artistas a apresentarem nesse tipo de show porque a primeira banda sempre toca muito cedo e ainda não tem público suficiente na casa de show. Mas como a nossa banda sempre valorizou a imagem que nós tinhamos para representar, nós usávamos o horário de abertura para ter tempo de decorar o palco.

-Vocês realmente fizeram muitas coisas. Mas quando vocês ainda tinham que se apresentar em shows com outras bandas, creio que vocês provavelmente não tinham muito dinheiro... Não foi difícil para vocês conseguir fazer roupas e acessórios de palco nessa época?

Mana: Tudo aquilo que nós podíamos fazer por conta própria, nós fazíamos. O Yu~ki-chan fez o próprio caixão que ele usava nas apresentações. Ele cortou e parafusou alguns painéis de madeira para construir o caixão. Fizemos uma música estilo industrial chamada “N.p.s N.g.s” e nela o Kami tocava em alguns tubos de metal soldados. Se eu não me engano, os tubos de metal soldados foram feitos por alguém da família do Kami, que sabia fazer esse tipo de trabalho. Durante o inverno, mesmo fazendo um frio terrível, nós íamos para o parque fazer os acessórios maiores que usávamos (risos). Ademais, nós mesmos transportávamos tudo, então além do carro para levar os integrantes para o local de show, nós tinhamos mais um carro só para levar os acessórios. Desde o começo da banda, nós viajávamos o país todo com dois carros para poder carregar tudo.

-Dois carros! Não foi caro comprar e manter esses dois carros?

Mana: Obviamente nós não tinhamos esse dinheiro, então um conhecido do Kami nos deu o carro velho dele para podermos transportar os acessórios de palco. Eu fui até Ibaraki-ken (terra natal de Kami) para poder receber o carro, mas quando abri a janela dele... Tinha um fedor horrível. Quando fui olhar dentro do carro, lá tinha uma carcaça podre que devia ser de algum bicho. De quebra o ar condicionado estava quebrado, então no verão era uma tortura viajar dentro do carro. Não importa o quanto limpássemos, não conseguiamos tirar o cheiro de podre de dentro dele e de quebra fazia um calor terrível. Era horrível. O TETSU (primeiro vocalista da banda, atualmente no ZIGZO) tinha dito que não queria usar ar condicionado por causa da garganta dele, então ele viajava no carro dos acessórios. Quando estávamos com os dois carros na estrada e parávamos um do lado do outro durante um sinal vermelho, podíamos ver como estava dentro do carro de acessórios. O TETSU e o nosso roadie que viajava com ele e que era responsável por dirigir o veículo estavam sempre encharcados de suor. Pensar que nós fazíamos turnês pelo país naquele estado é uma memória inesquecível (sorriso amarelo).

-Creio que para bandas indies que têm orçamento reduzido, esse tipo de experiência seja comum... Mas quando penso na imagem elegante de palco que vocês tinham, é supreendente saber que vocês também passaram por isso.

Mana: Os grandes acessórios de palco que nós tinhamos feito não cabia dentro da minha casa, então eu deixava eles do lado de fora do meu apartamento mesmo sem autorização (sorriso amarelo). Não tinha me passado pela cabeça que nós poderíamos ter alugado um galpão para guardar os acessórios. Uma vez eu tentei esconder no estacionamento de maneira que ninguém descobrisse as colunas do Partenon que nós usávamos nas apresentações. O zelador sabia que eu tocava numa banda, então acho que ele sabia quem tinha feito aquilo. Mas mesmo assim, ele nunca brigou comigo. Quando eu penso nisso agora, vejo o quanto dei trabalho pro zelador do prédio. Zelador, sei que já faz tempo, mas eu queria pedir desculpas (sorriso amarelo).

-Acho que é meio impossível você esconder as colunas do Paternon sem que ninguém descobrisse (risos). Mas vejo que vocês passaram por todos esses apertos para poder proteger e manter a visão de mundo e perfomance que o MALICE MIZER queria transmitir. De onde surgiu a ideia de criar essa visão de mundo e estilo performático?

Mana: Na época do nosso primeiro vocalista, o TETSU, eu e o Kozi ainda tocávamos nossas guitarras normalmente. Mas depois de algum tempo, eu comecei a pensar que numa banda como MALICE MIZER, nós poderiamos fazer mais do que simplesmente tocar guitarra. Além do mais, quando estávamos com as guitarras, nossa capacidade de se locomover no palco era reduzida. Então, apesar de ser algo inaceitável para uma banda de rock, nós começamos a conversar sobre criar uma música em que pudessemos dançar ao invés de tocar. Nessa mesma época, eu comecei a descobrir como reproduzir o som de uma orquestra nos instrumentos. Mas as ideias sobre música do TETSU começaram a não bater muito com as nossas ideias. O TETSU tinha dito que o MALICE MIZER parecia interessante e por isso entrou para a banda, mas depois de dois anos se apresentando com a gente, imagino que ele tenha percebido que o tipo de música que ele queria criar não era compatível com a ideia da banda. Creio que se as pessoas escutarem as músicas que o TETSU fez após o MALICE MIZER, elas entenderão que ele só saiu da banda porque a direção musical que ele queria seguir era simplesmente diferente da nossa.

-Os outros integrantes da banda não tinham nenhuma reserva quanto à direção musical que você queria seguir?

Mana: O Kozi é o tipo de pessoa que se algo parece divertido, ele quer fazer, então ele não teve muitas reservas quanto às minhas ideias. O Yu~ki-chan disse que não estava interessado na parte de dança, mas que a parte teatral ele gostaria de fazer. Quanto ao Kami, apesar que ele era o tipo de pessoa que gostava de novos desafios, imagino que ele teve algumas dificuldades pelo fato dele tocar bateria. Até porque passamos a criar muitas músicas que não precisavam de um baterista. Mas no fim das contas, todos nós concordávamos que deviamos tentar fazer coisas interessantes. E como nós decidimos que nós deveriamos fazer tudo aquilo que nós achassémos que conseguiriamos, eu e o Kozi passamos a acordar às 5 da manhã para ir treinar dança no parque.

-Vocês eram uma banda, mas iam treinar dança! (risos)

Mana: Nesse parque tinha um prédio com janelas de vidro que refletiam a imagem de corpo todo de quem estivesse perto, então havia muitas pessoas que iam até lá para praticar dança. Eu e o Kozi íamos até esse local, carregando um rádio e fitas cassetes, e ficávamos dançando enquanto observavamos nossa imagem refletida nas janelas de vidro. Eu originalmente queria ter entrado pros Johnnys, então eu nunca tive problema com dança ou teatro. Muito pelo contrário, eu queria fazer ambos.

-O quê!?? Johnnys!?

Mana: Quando eu era estudante do chugakko e ainda não tinha conhecido o rock, eu almejava ser como eles. Naquela época as danças dos Johnnys eram bem mais agressivas, então eu treinava todos os dias como dar saltos mortais e cambalhotas.

*Nota de tradução: Chugakko são os três anos do ensino fundamental antes de entrar para o ensino médio no Japão. No Brasil corresponderia da sétima a nona série.

-Jamais imaginaria isso...

Mana: MALICE MIZER tinha uma imagem muito literária, então acho que muitas pessoas imaginam que eu seja do tipo de pessoa que passa horas lendo livros com uma expressão séria. Na verdade, na minha infância, eu era o tipo de garoto que gostava de esportes e era bem ativo. Por isso, foi muito fácil parar mim incorporar perfomances com dança no MALICE MIZER. Eu pensava que colocando dança no MALICE MIZER, eu poderia aproveitar tudo aquilo que eu tinha praticado durante o meu tempo de estudante no chugakko.

-Como você mesmo disse, as suas ideias eram realmente estranhas e até mesmo bizarras para uma banda de rock. Mas mesmo assim, vocês foram mobilizando cada vez mais público a ponto de conseguirem realizar um último show antes da estreia major no Shibuya Koukaido. Isso me leva a crer que havia um grande número de pessoas que ao assistirem o MALICE MIZER pela primeira vez, acabavam virando fãs e passavam a acompanhar a banda.

Mana: No começo, quando nós tocávamos em shows com outras bandas, sempre ficava um clima esquisito no ar. Isso porque não havia nenhuma outra banda que dançava e fazia perfomances ao invés de tocar instrumentos, então a reação do público era geralmente de “O que essas pessoas estão fazendo no palco!? Não acredito!”. Ninguém estava preparado para o tipo de apresentação que faziamos, então muitos riam da gente. Por isso, eu não sei ao certo quantas pessoas viravam fãs a ponto de assistir nossas apresentações várias vezes, mas mesmo quando a gente era recebido com risadas, nós sempre nos apresentávamos com afinco. Para nós não era brincadeira, nós realmente queriamos representar através das nossas perfomances o mundo da europa medieval. Acredito que provavelmente pelo fato de não haverem outras bandas que faziam esse tipo de coisa, de pouco em pouco as pessoas começaram a se interessar pelo nosso jeito. Depois que o TETSU saiu do MALICE MIZER e o Gackt entrou como vocalista, o primeiro show que nós fizemos sem outras bandas foi no On Air West (atualmente O-WEST).

-Depois de 3 anos de banda, vocês conseguiram tocar no WEST. Dois anos depois, vocês tocaram no Shibuya Koukaido. E depois disso, vocês ainda fizeram shows em lugares ainda maiores como o Nippon Budokan e o Yokohama Arena. Também surgiram muitas bandas que respeitavam o MALICE MIZER e tentavam fazer algo parecido, mas no fim nenhuma delas conseguiu superar vocês...

Mana: Bem, se as outras bandas nos superassem, seria um problema (risos). Mas a minha ideia era transformar o MALICE MIZER na forma suprema do estilo Visual Kei. Acho que o modo mais fácil de entender esse conceito do MALICE MIZER é olhar a época que nós viramos uma banda major. Quando uma banda de visual kei vira major, a maioria delas cede às pressões da gravadora e acaba aos poucos se tornando uma banda de rock com um estilo comum. Mas eu era totalmente contra isso. Muito pelo contrário, eu pensava que já que viramos major, nós tinhamos que ser ainda mais chamativos do que antes.

-Falando nisso, no single de estreia major de vocês, vocês foram para a França e gravaram o PV e tiraram fotos promocionais nos castelos franceses, não foi?

Mana: Na época que a gente estava para se tornar major, nós conversamos com diversas gravadoras, mas somente a Nihon Columbia disse “vocês podem fazer do jeito que vocês quiserem”. As outras gravadoras acabavam fazendo exigiências como “vocês tem que diminuir a maquiagem” e etc.

-Mas se vocês cedessem às exigências dessas outras gravadoras, vocês não seriam mais o MALICE MIZER.

Mana: Naquela época provavelmente não havia muitas histórias de sucesso de bandas com maquiagem forte e roupas chamativas que conseguiam vender bem após virarem major. Eu não tinha pretensão de acabar com aquilo que eu estava fazendo com a banda, mas eu também entendo porque as gravadoras major fazem esse tipo de exigência. No fim das contas, ao contrário das bandas indies, que vivem num mundo bem estreito, quando se é major é necessário fazer com que a sua música alcance um público mais geral. Mas eu não acreditava que o MALICE MIZER fosse vender caso se tornasse uma banda de rock comum.

-Então foi por isso que você decidiu fazer com que o MALICE MIZER ficasse ainda mais chamativo após viram major.

Mana: Se nós virassemos major, nós teriamos condições de fazer shows e apresentações ainda maiores. E eu acreditava que com isso, nós conseguiramos fazer o MALICE MIZER ter sucesso e transformariamos ele em algo ainda maior do que uma simples banda – nós seriamos uma espécie de grupo artístico absoluto.

-E de onde você tirou essa confiança?

Mana: Sei que talvez não convenha eu falar isso, mas, primeiro, por causa da nossa qualidade musical. Não importa o quão bem você se apresente, se a música não for boa você não terá sucesso. A base de uma banda tem que ser o seu conceito e a sua qualidade musical. Muitas pessoas acham que o MALICE MIZER valorizava primeiro a parte visual, mas nós tinhamos uma conciência bem forte de que tinhamos que elaborar muito bem as nossas músicas. Quando o TETSU ainda era vocal e nós lançamos o “memoire”, nós tinhamos como regra absoluta que nossas músicas deveriam ser as mais bem feitas possíveis.

-E para você, o que seria uma “música boa”?

Mana: Meu único objetivo é criar músicas excelentes, então eu não tenho uma teoria fixa. Eu joguei fora as bases musicais do rock e, apesar de existir teorias de como compor uma música para que ela seja mais vendável, eu também nunca pensei muito nessas coisas. Eu não sei escrever partituras nem entendo muito bem de acordes. Quando eu vou compor uma música, eu apenas vou buscando no teclado o som que eu escutei no ouvido. Como todas as minhas músicas são feita com base nos meus sentidos, muitas vezes eu escuto dos profissionais que fazem mixagem que as minhas músicas tem uma progressão incomum. Eu componho música com base na história que eu quero contar. Às vezes eu penso que talvez eu tenha sido influenciado pelas músicas clássicas que sempre tocavam na minha casa. Eu não ligava muito para música clássica quando era criança, mas é como se eu tivesse me habituado naturalmente à todos aqueles sons entrelaçados das orquestras. Talvez seja por isso que quando eu comecei a compôr, eu naturalmente acabei criando músicas voltadas para esse estilo. Além disso, eu sempre busquei inspiração em estilos musicais que você não escuta em bandas de rock, como o pop francês e a bossa nova. O tipo de som que eu sempre busquei criar é algo que fosse ao mesmo tempo bonito, triste, exuberante e elegante.

-E o MALICE MIZER que você tinha certeza que ia dar certo, acabou pegando a onda de sucesso inédita que o estilo Visual Kei teve no fim dos anos 90 e realmente vendeu bem. Vocês foram chamados de os “deuses do Visual Kei” junto com mais três bandas e foram convidados para participar não só de programas de música, como também de shows de variedade da TV.

Mana: Ah, realmente teve esse negócio de “os deuses do Visual Kei”, não é? Mas esse foi um título que criaram para a gente na época e eu mesmo nunca liguei muito para isso. Acho que algumas pessoas da época vão ficar bravas com o que eu vou dizer (risos), mas para mim o MALICE MIZER sempre esteve numa categoria à parte, separado das outras bandas. Não é que eu odiava os outros grupos ou coisa assim, mas acho que é mais certo dizer que nós simplesmente éramos muito diferentes.

*Nota de tradução: Aparentemente a mídia japonesa chamava o MALICE MIZER, o SHAZNA, o La'cryma Christy e o FANATIC◇CRISIS de “os quatros deuses do Visual Kei” no fim dos anos 90.

-É porque naquela época o Visual Kei saiu do mundo fechado em que estava e virou uma febre geral. Acredito que por causa disso, a mídia japonesa tentava agrupar as bandas de maneira simplificada para tentar expandir o gênero ainda mais. Como você se sentiu em relação a essa popularidade inesperada?

Mana: Eu sinto que a febre do Visual Kei não foi algo que surgiu naturalmente, mas sim foi algo que nós mesmos criamos. Uma das coisas que eu queria fazer na época, mas que hoje em dia já é banal, era juntar o mundo do 2D dos animes com a música. Até então, anime e música eram dois gêneros completamente diferentes e os fãs não costumavam se misturar. Mas como o MALICE MIZER era uma banda que parecia ter saido diretamente do mundo dos animes, as pessoas que eram fãs disso acabaram entrando de cabeça na onda do Visual Kei.

-Ah, você acabou de me descrever, sou otaku de anime e mangá. (risos)

Mana: Bem, eu também gosto de animes, então no fundo eu almejava que outros fãs de animes passasem a nos ouvir. (risos)

-Vocês seriam na época o que hoje em dia a gente chama de 2.5D, não é? Talvez as pessoas achem que eu esteja procurando um motivo qualquer para justificar a trajetória do MALICE MIZER, mas depois de ouvir você contar sobre como tudo aconteceu, eu só consigo pensar que você teve uma capacidade expecional de enxergar adiante. Porque tudo aquilo que você pensou e realizou na época, hoje em dia se tornou algo comum.

Mana: Eu só queria representar fielmente o mundo que eu havia criado, então não é como se eu estivesse pensando seriamente no que aconteceria no futuro como um criador ou coisa assim... Se bem que não dá para dizer que eu não sou um criador também...

*Nota de tradução: No Japão, eles chamam de 2.5D uma adaptação em 3D de uma obra originalmente 2D (como peças de teatros e musicais de animes ou jogos).

-Mas, você não tinha nenhuma meta a bater quando criou os conceitos e ideias por de trás da banda?

Mana: Hm, como eu posso explicar... No caso do MALICE, acho que eu tinha alguns objetivos que eu queria alcançar. Como eu disse anteriormente, eu queria fazer um mix entre música e anime, incorporar elementos da moda na banda e fazer coisas que ninguém havia feito antes. Será que dá para dizer que isso é uma “meta a ser batida” também?

-Creio que sim, mas geralmente as “metas” dos criadores que existem por aí envolvem criar conteúdo que seja vendável ou que impulsione uma nova febre.

Mana: Se for nesse sentido, então creio que não seja esse o meu caso. A minha ideia era criar um novo tipo de cultura.

-Numa época em que a moda gótica ainda não era popular, você criou a sua própria marca do gênero, a “Moi-meme-Moitie” Eu realmente sinto que você criou uma nova época.

Mana: É verdade. Eu queria criar uma cultura que ninguém havia visto ainda. Por isso eu prôpus uma fusão entre a moda gótica e a moda lolita, que seria o “elegant gothic lolita”.

-A sua marca também não foi algo que você criou do dia para a noite. Assim como o MALICE MIZER que esse ano completa 25 anos... Vocês vão fazer um evento comemorativo em setembro?

Mana: Para ser mais exato, na verdade a banda fez 25 anos no ano passado. (risos)

-Em 2001, um ano antes da banda completar 10 anos de existência, as atividades do MALICE MIZER foram paralizadas. Desde então vocês não fizeram nenhum evento comemorativo?

Mana: Sim, não fizemos nada nem no aniversário de 10 anos, nem no de 20 anos. Acho que por isso alguns devem estar pensando “por que é que vocês decidiram agora comemorar o aniversário de 25 anos!?” (risos).

-Qual foi o motivo pelo qual vocês decidiram fazer uma cerimônia de comemoração aos 25 anos?

Mana: Eu não sei até que ponto eu posso falar... Então eu vou explicar o que eu puder. Creio que se eu não explicar nem que seja um pouco, muitos não vão entender porque decidimos fazer uma comemoração de 25 anos tão repentina. Para falar a verdade, isso é algo que eu nunca contei antes, mas... Na época do aniversário de 20 anos da banda, eu decidi fazer algo.

-No aniversário de 20 anos, ou seja, no ano de 2012.

Mana: Exato. Isso foi há 6 anos atrás. Na época que o MALICE paralisou suas atividades, eu não conseguia me conformar com certas coisas. Creio que tenha sido o mesmo para os fãs. Voltando um pouco mais atrás, antes da gente paralisar as atividades da banda, no ano de 1998, viramos manchete porque o Gackt desapareceu e depois decidiu sair do grupo. Acho que por causa de todo aquele holofote, os fãs da banda acabaram ficando durante muito tempo sem saber o que era verdade e o que era mentira. Quando o MALICE estava para fazer 20 anos de existência, eu senti vontade de esclarecer toda essa situação.

-Na época do incidente do Gackt, não houve qualquer comentário vindo do MALICE MIZER para esclarecer a situação. Mesmo quando vocês decidiram paralisar as atividades em 2001, também não houve nenhum comentário falando sobre o que havia acontecido atrás dos bastidores. Você sentiu vontade de contar aos fãs o que aconteceu na época no ano em que comemorariam os 20 anos da banda?

Mana: Sim, eu senti uma grande vontade de contar. Na época do incidente, o Gackt fez vários comentários para o público, deu entrevistas e até chegou a publicar um livro, então o resto do MALICE MIZER acabou ficando em uma posição desvantajosa. Bom, na época nós não falamos nada, então muitas informações foram omitidas e por isso houve alguns desentendimentos. De qualquer maneira, não era minha intenção deixar que esses mal-entendidos continuassem se arrastando por anos, então eu pensei que o vigésimo aniversário da banda seria uma boa época para que nós pudessemos deixar esses acontecimentos do passado para trás e nós reunirmos todos novamente no palco, como artistas.

-Juntamente com o Gackt.

Mana: Realmente, com o passar do tempo os nossos sentimentos vão se modificando. No décimo aniversário da banda, tudo ao redor estava caótico, mas 10 anos depois, no vigésimo aniversário, a mágoa que eu carregava no coração foi se dissipando. Afinal de contas, eu sempre reconheci que o Gackt enquanto artista do MALICE MIZER era dono de um grande talento. Foi depois que ele entrou para o grupo que nossas perfomances se tornaram mais teatrais e as apresentações também se tornaram mais agradavéis de se assistir.

-Então você entrou em contato com o Gackt?

Mana: Sim, juntei toda minha determinação e decidi ligar para ele. Depois que o Gackt desapareceu e voltou dizendo que sairia da banda, eu nunca mais entrei em contato com ele. Aparentemente, a imagem que as pessoas têm é que o MALICE MIZER nunca mais voltou a ativa porque eu, o líder da banda, nunca perdoei o Gackt pelo que ele fez. (sorriso amarelo)

-De vez em quando havia reportagens falando isso nas revistas de fofocas.

Mana: Mas eu acho que existem algumas pessoas que sabem o que é verdade e o que é mentira. Na época do incidente do Gackt, algumas revistas de música chegaram a nos entrevistar e perguntar o que nós achávamos da situação...

-É verdade. Também me lembro que houve várias coisas que vocês não puderam falar por causa da situação e coisas que vocês acharam melhor não comentar... Mas depois de tudo, você ainda sabia o contato do Gackt?

Mana: Não, eu não sabia. Muito antes de toda essa história de perdoar ou não perdoar, eu já não sentia vontade de entrar em contato... Então eu pesquisei muito, entrei em contato com várias pessoas e finalmente consegui telefonar para ele.

-Quando foi que você ligou para ele?

Mana: Foi em 2011, um ano antes do aniversário de 20 anos. No fim das contas nós não conseguimos realizar o show, mas a ideia era realizar uma apresentação comemorativa dos 20 anos da banda e nós começamos a nos movimentar para tentar fazer isso acontecer. Eu me encontrei com o Gackt e até reuni os membros da banda para uma confraternização.

-Então vocês planejavam fazer o show e começaram os preparativos bem antes. Que tipo de ideia vocês tinham para o show de 20 anos da banda?

Mana: Na realidade, na época do show do Yokohama Arena (último show do Gackt com a banda), nós tinhamos um plano. Depois do show do Yokohama Arena, a ideia era fazer alguns shows e por fim uma apresentação no Tokyo Dome. Nós já estávamos até definindo as datas do show no Tokyo Dome quando aconteceu o incidente do Gackt e esse planejamento foi cancelado. Então nós nos reunimos e decidimos que iriamos comemorar o vigésimo aniversário da banda no Tokyo Dome. Fizemos reuniões não só com os membros da banda mas com os staffs também e já estávamos com um plano concreto em ação. Estava tudo indo conforme o planejado... Mas bem, aconteceram coisas depois...

-O planejamento foi cancelado.

Mana: Aparentemente o Gackt teve alguns problemas e por causa disso não poderia mais participar. Não havia mais nada que pudéssemos fazer, então deixamos o vigésimo aniversário passar em branco. Mas depois desse aniversário, a próxima grande data comemorativa seria o aniversário de 30 anos, mas aí já seria um tempo muito longo, não é? Honestamente, nem mesmo eu sei como as coisas estarão daqui a 5 anos. Então, aproveitando que o aniversário de 25 anos se aproximava, eu decidi fazer um evento comemorativo do MALICE MIZER. Não é um revival da banda e não será igual ao que nós haviamos pensando na época do 20º aniversário. Será um show de aniversário em comemoração aos 25 anos da banda, o “MALICE MIZER 25th Anniversary Special” no evento “Deep Sanctuary” que é organizado pelo Moi dix Mois. Para fazer os vocais, eu convidei os roadies que nós acompanhavam no tempo em que a banda era ativa.

-Esse show é quase um milagre se formos pensar que ele só será possível porque muitas pessoas que estavam envolvidas com a banda continuam ativas no meio musical, até mesmo aqueles que serão guest vocal no dia.

Mana: É verdade. Na realidade nós entramos em contato com todos os ex-integrantes e roadies que estavam envolvidos com o MALICE MIZER e perguntamos se eles não poderiam participar. Como seria um evento comemorativo da banda, achei que o mais certo seria falar com todos. Fora isso, teve algumas pessoas com quem eu não tive como entrar em contato. No caso da bateria, eu pedi ao Sakura (da banda ZIGZO e outros) para tocar. Foi ele quem ensinou bateria ao Kami. Eu e o Kozi em particular dividimos a tarefa de ligar para todos que tinham ligação com a banda. Quando eu fui falar com o KAMIJO e o Hitomi, eles ficaram muito contentes e me disseram que seria uma honra participar. Com isso eu sinto que finalmente vou conseguir deixar algumas coisas esclarecidas para todos.

-Eu assisti ao seu show de aniversário em março desse ano e fiquei com a impressão que muitos fãs do Moi dix Mois são fãs da época do MALICE MIZER. Os seus fãs são extremamente apaixonados e devotados e fiquei pensando o quão incrível é você ter mantido a motivação dos seus fãs por mais de 20 anos. Qual foi o segredo para você ter mantido seus fãs por tanto tempo?

Mana: Creio que foi porque eu não mudei em nada, não é? Provavelmente, as coisas que eu falo hoje em dia e até minha maquiagem, nada mudou muito do que era antes. Estou apenas sendo eu mesmo. Imagino que meus fãs se identificam com isso.

-Mesmo assim, nos dias de hoje há sempre uma nova febre ou moda aparecendo. Não há nada de novo pelo qual você seja influenciado? Você nunca pensou em fazer algo novo ou mudar algo na forma como você se apresenta?

Mana: Não. Eu nunca nem mesmo fiz algum show na vida usando maquiagem leve.

-Mas, você é do tipo que quando acha algo interessante, quer logo experimentar, não é? Na revista de música que eu trabalhava antigamente, lembro que nós fizemos um ensaio onde você vestiu uma jaqueta de motoqueiro e montava numa moto, além de outro no qual você se vestiu como uma criança na pré-escola e tirou fotos junto com algumas crianças do jardim de infância. Nós realmente fizemos várias coisas diferentes.

Mana: Eu tenho uma vontade muito forte em fazer coisas relacionadas à europa medieval e ao gótico, mas na realidade, sou o tipo de pessoa que se adapta conforme a situação pede.

-Eu bem sei disso. (risos)

Mana: Isso é porque na verdade eu quero sempre poder surpreender meus fãs. Eu estou sempre disposto a experimentar outras coisas. Por causa disso, há poucas coisas que eu realmente não concorde em fazer.

-Qual seria então a única coisa da qual você não abriria mão e não faria, mesmo que tivessse que mudar todo o resto?

Mana: Minha música. Eu posso mudar qualquer coisa menos a minha música, uma vez que o tipo de música que eu faço tem sido o mesmo há 25 anos.

-No Moi dix Mois sua guitarra tem um som mais voltado para o rock, mas a base dela é a mesma do MALICE MIZER?

Mana: Os acordes e os arranjos das músicas do Moi dix Mois não variam muito das do MALICE MIZER. Esse é o tipo de música que eu pretendo fazer, então estou determinado a continuar com esse estilo seja o que for. Talvez eu consiga ser flexível em outros aspectos porque eu não quero ceder nesse?

-Você não desiste nem cede quando é algo que você quer.

Mana: Mas ao mesmo tempo, eu também não pretendo mudar a minha imagem visual. Para mim não faz sentido se eu não puder mesclar a música aos visuais.

-Acho que é por causa disso que não há nenhuma estranheza em voltar para o MALICE MIZER depois de 10 anos. É incrível como você ainda é capaz de fazer a mesma coisa que você fazia há 25 anos atrás sem mudar em nada. Eu não sei como vai ser daqui em diante, mas eu adoraria ver o show de aniversário de 30 anos da banda.

Mana: Isso nós vamos ter que ver ainda. (sorriso amarelo)

-Analisando a sua vida como membro de uma banda, além do fato dos seus fãs terem te acompanhado durante todos esses anos sem desistir, quais são os momentos que te fazem pensar que você é feliz?

Mana: A minha vida como músico parece mais uma sucessão de acidentes, não é? Quando eu penso nisso, eu acho incrível que eu tenha conseguido me manter na ativa até agora. Só não sei se dá para chamar isso de felicidade. Afinal de contas, houve muitas trocas de vocalista (sorriso amarelo). Geralmente a maior parte das bandas costuma acabar quando o vocalista saí, não é mesmo?

-Quantos vocalistas suas bandas já tiveram?

Mana: No MALICE MIZER foram o TETSU, Gackt e o Klaha. Mas antes do Klaha entrar, eu discretamente gravei os vocais para o single “Saikai no Chi to Bara” (risos). No Moi dix Mois foram o Juka e o Seth. Dizem que há altos e baixos em qualquer banda, mas as minhas parecem ter mais baixos que altos (sorriso amarelo). Mas todos os vocalistas com quem eu já me apresentei colaboraram muito para cada banda, então eu sou grato.

-Depois de ouvir isso eu penso ainda mais que o motivo pelo qual você tem tantos fãs é por causa que nem você nem o mundo que você criou tem mudado até agora.

Mana: O tipo de música que eu quero criar e a a visão de mundo que eu quero expressar estão bem firmes dentro de mim e isso jamais vai mudar. Eu quero continuar protegendo esse mundo, por isso não há mais ninguém no meu mundo além de mim. De agora em diante, eu vou continuar protegendo a minha música e o mundo que eu criei, por isso eu gostaria que as pessoas me acompanhassem.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Conhecendo Mana-sama em Seattle


Entre os dias 31 de Março e 1 de Abril aconteceu em Seattle, WA, o evento Sakura-con. Mana-sama foi um dos convidados especiais e por causa disso eu decidi ir. 

Sobre o evento 

No dia 29 de Janeiro foi anunciado na página oficial do Sakura-con que Mana seria um convidado especial. Em seguida, foi anunciado que haveria um desfile da Moi-même-Moitié e um Teaparty oficial com o Mana. No evento, seriam realizadas duas sessões de autógrafos: uma sábado e uma domingo. Aconteceria também o desfile e um painel de perguntas e respostas. Fora do evento, seria realizado o teaparty, em um salão de um hotel chamado Grand Hyatt, na qual Mana ficou hospedado. Para acessar o teaparty, algumas exigências foram feitas: ao menos 1 peça da Moitié teria que ser usada, era proibida a entrada de cosplays e você necessariamente tinha que ter o ingresso do Sakura-con. Esse teaparty foi o primeiro oficial realizado pela Moi-même-Moitié!

Wunderwelt no Sakura-con
A Wunderwelt, que agora administra a Moi-même-Moitié, possuía um stand na área de compras do evento. O stand era bem modesto e pequeno, com apenas 2 araras contendo pouquíssimas coisas à venda (de variadas marcas lolita), 1 manequim contendo o mais recente vestido da Moi-même-Moitié e acessórios à venda no balcão (os da MmmM esgotaram no mesmo dia que o stand abriu). Nesse balcão havia também um quadro branco com uma mensagem escrita pelo Mana... Não tirei foto (pois sou burra), mas era um agradecimento e a assinatura "Mana".

Mana no stand da Wunderwelt apresentando os vestidos novos!
 Atrás dele, o balcão aonde era possível ver acessórios à venda. 
Fonte: Instagram/Facebook Moi-même-Moitié

Os vestidos novos da Moitié não estavam à venda. Na verdade, eram apenas para exibição. A pré-venda desses vestidos poderia ser feita pela internet a partir do dia 1º de Abril. As duas mulheres que eram staffs da Moitié (uma japonesa e a tradutora do Mana, que é a representante da marca no ocidente e cuida da página oficial do Facebook) estavam usando esse vestido, cada uma de uma cor, durante suas aparições ao lado do Mana. A pré-venda pode ser realizada através desse link, mas infelizmente para nós brasileiras o custo continua alto, considerando que a conversão para nossa moeda ultrapassa mil reais, fora a taxa alfandegária de 60%. 


Bem, não vou falar sobre a sexta-feira por enquanto porque praticamente não fiquei no evento!

Sábado, 31 de Março

 
Esperando o Uber para o evento!

No sábado iríamos assistir ao desfile, pegar autógrafos com o Mana e participar do painel de perguntas e respostas. Tudo isso tomou praticamente todo meu tempo e mal pude ver os stands. Mas o pouco que pude ver deu pra notar a grande diferença em relação ao Brasil: todos os produtos são oficiais e licenciados. Além disso, é muito forte a cultura de usar roupas medievais ou baseada em fantasia medieval, então haviam stands de jóias élficas e muita roupa de época masculina e feminina. Esses stands eram numerosos e grandes, com enormes araras e manequins com as roupas.

 



Começando o dia: Stand da Wunderwelt e Moi-même-Moitié Fashion Show 

Encontrei-me com minha amiga Cindy (que foi do Canadá para Seattle ver o Mana também) e o marido dela, Travis. Lucas (meu marido) estava comigo e nós quatro fomos para a fila do desfile. Atrasou uma meia hora para começar e foi bem chato... mas paciência. O local era um auditório grande equipado com um palco e uma passarela, dois enormes telões laterais, fotógrafos e cinegrafistas, fora a câmera fixa que ficava no alto de frente para a passarela. O primeiro desfile foi de um designer que eu desconhecia cujas roupas são bem fofinhas, apesar de 'normais', comparado com lolita. Após o desfile, o designer apareceu no palco para agradecer e saiu. As luzes abaixaram e um staff disse ao microfone, não com essas palavras, obviamente: "Escutem aqui seus arrombados, a partir de agora é proibido foto nessa caralha, do contrário vocês lolitinhas fangirls serão expulsas daqui, escutaram? Abaixem essas porras desses celulares, não façam nenhum tipo de gravação ou foto." Com esse recado, sabíamos o que viria em seguida. Eu achei que o Mana ia aparecer nessa hora e comecei a ficar emocionada, mas as modelos entraram primeiro. O desfile começou com as modelos usando roupas antigas (porém nem tanto) da Moi-même-Moité que obviamente sequer estavam à venda (rindo de nervoso). Era um desfile unicamente para divulgar e enaltecer a marca e o próprio Mana porque nem o vestido novo apareceu no desfile. Mas quem liga?! Foi lindo ver as roupas na passarela e as modelos eram todas maravilhosas. Inclusive, uma das modelos não era branca!

Foto: Facebook Moi-même-Moitié
Foto: Facebook Moi-même-Moitié

Foto: Facebook Moi-même-Moitié

Passado o desfile, quem vem ao palco? Sim, ele mesmo. Foi a primeira vez que pus meus olhos nele. Andando do jeito que ele sempre anda, vindo do fundo do palco, Mana-sama apareceu para reverenciar e agradecer a platéia. Eu estava muito ansiosa no começo do desfile com a expectativa dele aparecer, mas depois de ter visto as modelos e o desfile primeiro, eu já estava mais calma. Portanto, nesse momento, eu estava muito feliz, mas estava conseguindo conter minhas emoções tranquilamente. As plataformas pareciam mais altas do que as que ele usa em shows e a luz de palco fez esse homem reluzir como um anjo!

Foto: Twitter @M_d_M_official

Neste dia também fomos no stand da Wunderwelt após o desfile.

Cindy e eu (meio) com duas staffs que estavam trabalhando no stand

Autógrafos


Poucas horas após o desfile, foi a vez dos autógrafos. Era expressamente proibido ficar no local das filas mais de meia hora antes do evento. Exemplo, se o evento é as 14:00, as filas começam a ser formadas as 13:30. Qualquer horário antes de 13:30 você não pode aparecer no local da fila. A gente tentou ficar na fila faltando 40 minutos para os autógrafos e os staffs não apenas falaram para saírmos como também se recusaram a informar aonde a fila seria formada (o local era grande e haviam várias filas simultâneas para diferentes coisas). Na fila encontramos várias pessoas e conversamos com bastante gente, dentre essas pessoas, algumas modelos do desfile. Uma dela nos disse que o Mana conversou no backstage do desfile e enfatizou que a voz dele é bem menos grave do que nos vídeos do Malice Mizer que conhecemos. Ela disse que a voz dele tem um tom um pouco mais feminino!

Antes da fila de autógrafos começar ficávamos nessa área, aonde já haviam várias lolitas esperando

Fila dos autógrafos!

Linda família da fila de autógrafos, reparem o mini Gackt!

Cosplayer de Mana
Cosplayer de Mana Moi dix Mois
Antes de Mana nos agraciar com sua presença e o seu caminhar ereganto, foi avisado que não poderíamos tirar fotos ou filmar. Mana apareceu com seus staffs, a tradutora e a japonesa sempre presentes, e caminhou a uma certa distância da fila em direção à mesa que faria os autógrafos. Minha vez de pegar o autógrafo ia aproximando e eu fui ficando meio emocionada. Chorei um pouquinho quando vi que estava perto dele e que muito em breve iria vê-lo de pertinho e pegar na mão dele. Lucas estava comigo e pegou um autógrafo para mim também, assim como o Travis, marido da Cindy, também pegou um autógrafo extra pra ela. Eles estavam super emocionados, sqn. rs 

Eu levei para Mana autografar o meu fichário da Mon+amour, de quando eu era do fã-clube. Eu queria que ele assinasse a primeira página (uma página em branco, com logotipo do fã-clube), mas o arrombadinho pegou o fichário da minha mão e simplesmente assinou no próprio fichário, na parte de dentro. Eu entrei em choque, como poderia corrigí-lo?! Bem, obviamente eu não falei nada. Enquanto tudo isso acontecia eu ficava olhando atentamente para o rostinho dele. Ele me devolveu o fichário, apertou minha mão e eu saí. Nos meus poucos segundos na frente dele, pude reparar alguns detalhes que não foram possíveis de notar com a luz de palco do desfile. 

Primeiro, o nariz dele é maior do que parece em fotos (talvez porque a gente esteja muito acostumado a ver o nariz dele quase invisível nas fotos). Ele é bem narigudinho. A pele em torno das narinas é um pouco funda, coisa da idade mesmo, e enquanto eu observava ele cumprimentar as pessoas na minha frente na fila, notei que ele mexia um pouco os lábios, e nisso algumas rugas em torno da boca apareciam. Ele sempre apertava a mão das pessoas e fazia um sinal de "sim" com a cabeça, como quem está agradecendo, e nisso ele apertava um pouco os lábios. Pasmem, a pele dele tem poros (!!) e ele usa MUITA maquiagem, não possui nenhuma protuberância ou buraquinho. Tirando a pele em torno das narinas e boca, eu não consegui notar nenhuma outra marca no rosto dele. O homem realmente tem uma beleza natural na qual não podemos apreciar totalmente porque ele não sai nem fudendo da persona.

Meu fichário da Mon+amour



Muita gente saía desses autógrafos bem emocionado, às vezes abraçando o item autografado (vi muitas Gothic&Lolita Bible), as vezes tentando disfarçar lágrimas. Foi muito perceber isso. Eu mesma saí de lá extasiada, me sentindo absolutamente plena e abençoada rs. Tinha uma moça que agachou para chorar e eu tentei acalmá-la pois parecia até que ela ia passar mal...

Selfie do dia 31 de Março. Fonte: Twitter @M_d_M_official


Painel de Perguntas & Respostas

Após os autógrafos, teríamos um tempo antes do painel de perguntas e aproveitamos para comer. Depois, mais uma fila, dessa vez para o painel. E novamente houve atraso para começar. Esse atraso foi particularmente ruim pois organizaram a fila com todo mundo junto, tipo um zigue-zague, e o local ficou bem quente. Eu não estava me sentindo bem (mistura de cansaço, dor de cabeça, calor) e cada segundo que passava em atraso era tortuoso. Eu até cheguei a mandar um tweet pro Mana pedindo pra ele andar logo porque meus pés estavam doendo (mas depois apaguei) rs. Entramos na sala aonde seria o painel e as duas staff da Moi-même-Moitié (não eram as duas com a gente na foto, essas eram do stand da Wunderwelt) estavam lá, a japonesa e a representante da marca no ocidente, além de um japa que parecia quarentão bem estiloso, de cabelo compridinho/médio, que não falou um A, apenas ficou sentado na cadeira ao lado da cadeira que seria do Mana. Teria eu pensado que aquele é o namorado do Mana? Talvez. 

Antes do Mana entrar, o público poderia fazer perguntas ali mesmo para as staffs sobre a marca em si. Algumas perguntas que foram feitas:

Vocês pretendem relançar sapatos?
Resposta: Temos planos, mas precisamos primeiramente ver um fabricante que seja bom o suficiente.

Vocês pretendem lançar roupas maiores?
Resposta: Estamos planejando isso aos poucos. Por enquanto, o mais recente lançamento terá tamanho G. (neste momento a staff falou sobre medição de tamanhos, não lembro os detalhes). Não podemos por enquanto prometer nada. Além disso, entrar em um vestido não significa necessariamente que ele serve, mas estamos aos poucos melhorando, mas por enquanto pedimos paciência sobre esse assunto.  (a staff falou isso mas no fundo eu entendi uma mensagem mais dura: não temos planos de lançar tamanhos grandes e se enfiar num vestido não quer dizer que ele te serve).

Bem, quando visitei o stand da Wunderwelt (da foto lá em cima segurando o logo da Moitié) eu deixei 3 perguntas para o painel. Foram elas:

1 - Você tem planos de lançar um novo álbum?
2 - O que você acha de lolitas que possuem tatuagem?
3 - Quando o Moi dix Mois vai fazer um show dos Estados Unidos?*

*Não perguntei Brasil porque fiquei com medo dele falar "Não tenho planos" bem na frente da minha salada.

Passada a parte de perguntas livres às staffs da Moitié, é anunciado que a plebe (nós) não podíamos tirar fotos e nem filmar. Quem tava chegando?? Bem, obviamente o esquema foi aquele que já conhecemos. Uma staff selecionava as perguntas (lendo previamente) e passava para a tradutora do Mana, que falava pra ele em japonês, que respondia no ouvido dela. Não ouvimos um pio da criatura, como era de se esperar.

E aí, para minha surpresa, ele respondeu todas as perguntas! Eis as respostas (de memória minha, viu?):
1 - Você tem planos de lançar um novo álbum?
"Eu não estava planejando gravar algo por agora mas estando aqui e vendo a empolgação das pessoas me faz querer entrar no estúdio assim que voltar pro Japão."

2 - O que você acha de lolitas que possuem tatuagem?
"Se for uma tatuagem relacionada comigo, eu fico muito feliz. Mas se não tiver nada a ver comigo, eu não tenho uma opinião a respeito."

Nesse momento a tradutora perguntou se alguém possuía tatuagem relacionada com o Mana e apenas a Cindy levantou a mão, pois ela tem uma bela tattoo do logotipo da Moitié no pulso!

3 - Quando o Moi dix Mois vai fazer um show dos Estados Unidos?
"Estou muito feliz por estar aqui então gostaria de poder fazer um show nos Estados Unidos em breve!"

Claro que houveram outras perguntas, vou citar aqui as que eu lembro.
Qual sua música favorita do Malice Mizer? E álbum?
"A música é Bel Air e o álbum é o Bara no Seidou."

Qual sua música favorita do Moi dix Mois?
"Por ter sido a primeira música que fiz, é Dialogue Symphonie."

Qual a sua maior conquista da vida?
"Quando o Malice Mizer fez o show do Bara no Seidou, nós fizemos a maior estrutura de um show já realizado até então naquele lugar. Essa foi minha maior conquista."

Quais são as suas influências?
"Nos anos 80 eu escutava muito Motley Crue e Slayer."

Você tem alguma inspiração (para compor, criar etc)
"Não." (platéia ri)
"Mas cozinhar é algo que me inspira."

 O que você acha da forma como lolita evoluiu nos últimos 15 anos?
"Não tenho opinião sobre isso."

O que você acha de pessoas mais velhas que usam lolita?
"Eu acredito que não há idade para vestir as roupas, quero que as pessoas continuem a usar de forma bonita e elegante."

Você possui uma rotina de cuidados com a pele?
"Não tenho rotina de cuidado com a pele e nao uso produtos em particular."

O quão freqüentemente você corta o cabelo? Quem arruma seu cabelo?
"Eu mesmo corto e estilizo meu cabelo e eu faço assim!"
(NESTE MOMENTO ELE GESTICULA COM OS DEDINHOS SINAIS DE TESOURA NO CABELO)
(TODAS GRITAM POR DENTRO POIS É MUITO FOFO)


Cindy e eu no final do painel

Pelo que eu lembro, foi isso! Agora, algumas fotos minhas e da Cindy neste dia:

Não é photoshop disaster, meus olhos estão estranhos mesmo

Fala se não é a print mais linda da face da terra...

Cindy, rainha da porra toda, possuidora dos Iron Gate!


Esperando o ônibus no final do evento


Passado isso tudo, encerra o dia de sábado.

Domingo, 1º de Abril

Domingo seria um dia muito especial pois era o dia do teaparty da Moi-même-Moitié com a presença de vossa Excelência, o sr. Mana-sama. Antes do teaparty, no entanto, havia outra sessão de autógrafos. Mesmo esquema do dia anterior. Porém, no domingo haviam poucas pessoas. Tão poucas que o staff nos disse que poderíamos pegar autógrafo duas vezes e todo o processo não demorou mais do que 5 minutos (pegar o autógrafo, voltar na fila, pegar outro autógrafo). Eu não sei o que eu tava na cabeça mas eu não levei nada meu para ser autografado a não ser o fichário da Mon+amour, e mesmo assim no domingo não levei ele. Não tinha merchandising oficial do Mana e nem goodies do Moi dix Mois ou Malice Mizer. Eu tenho várias coisas em casa que poderia ter levado mas não levei porque: burra. Sorte que na hora eles estavam dando um mini-poster A4 e eu pude pegar um pra mim. Mana autografou, mas quando voltamos para a fila, os posteres acabaram. Na fila mesmo, antes de chegar nossa segunda vez, as pessoas usando a print Iron Gate (se você é do meio lolita você sabe mais ou menos quanto esses vestidos valem) combinaram de pedir permissão para que Mana assinasse os vestidos. Na hora H, como não haviam mais posteres, eu decidi pedir que ele assinasse, embora o vestido não fosse meu (a Cindy me emprestou o dela). No fundo fazer isso mais do que me recompensou, e vou explicar depois o porquê. 

Na primeira parte dos autógrafos, eu já estava me sentindo parça do Mana. Já tinha visto ele várias (três) vezes, faltava só convidar para tomar uns refri com a rapaziada. Então eu estava super de boa nessa fila, embora no momento em que eu estava de frente pra ele, senti que iria dar um grito ali mesmo, ou fazer algo bem louco tipo pular no pescoço dele, puxar o cabelo, sei lá rs. Neste dia ele estava de preto, porém usando o mesmo batom nude do dia anterior. Os gestos foram exatamente iguais do dia anterior. Na segunda parte do autógrafo, no entanto, como eu pedi para ele autografar o forro da saia do vestido, ele teve que esticar bem o tecido para conseguir escrever. Isso demorou alguns segundinhos a mais e eu aproveitei para observar as mãos dele. Mãozonas, aliás, pois ele tem dedos bem grandes! As cutículas dele estavam um arregaço, tudo seca soltando aquela pelinha, dava uma agoniazinha. Como os dedos são grandes, as unhas também são (na largura). Tudo isso me fez pensar que Mana é, de fato, uma pessoa bem ambígua. Embora tenha uma pele muito lisa e use maquiagem, ele tem gestos muito masculinos. Eu sei que quem gosta dele já está careca de saber disso, mas antigamente ele dizia não enxergar o gênero das pessoas pois homens e mulheres são iguais para ele. Pensando mais em quando ele era do Malice Mizer e precisava performar mais, tenho a impressão que nessa época ele precisava incorporar mais o seu lado feminino, sempre se caracterizando de personagens mulheres no palco ou em clipes. Mas no Moi dix Mois ele parece ter assumido de fato a sua ambiguidade, pois ao mesmo tempo que fica à vontade com seus trejeitos masculinos, você percebe nele uma sutileza feminina, que não está apenas na maquiagem. 

Iron Gates assinados pelo Mana! Fonte: Instagram @phantasmag0rical


Nosso nenê no local dos autógrafos. Fonte Twitter @M_d_M_official

Após os autógrafos, o "Iron Gate squad"! Fonte: Instagram @artemis_argyi




Momentos após os autógrafos, a gente se dirigiu ao hotel Grand Hyatt, aonde seria o teaparty oficial da Moi-même-Moitié! O hotel ficava a uma quadra do local do evento. Fomos andando (Cindy e eu) e chegando lá já haviam algumas lolitas esperando. Todas impecáveis usando Moitié. Nunca em minha vida eu vi tanta Moitié junto... Havia uma representante da Kera, que tirou fotos individuais de todo mundo. Uma moça chamada Helen entrou em contato conosco antes do Sakura-con para pedir fotos e depoimentos sobre o Mana. Ela estava no teaparty e nos mostrou o trabalho dela: um lindo scrapbook contendo nossas fotos e depoimentos. Ela entregou para a tradutora do Mana antes que ele chegasse ao salão, para que ela entregasse pra ele. E ela entregou!

Com atraso, o checkin do teaparty foi feito. Entramos no salão e haviam mesas redondas com espaço para dez pessoas cada. Infelizmente não tirei muitas fotos (apesar de poder, porque Mana ainda não havia chegado) por alguns motivos simples. O primeiro deles é que eu me sentia muito deslocada. As lolitas estrangeiras são todas muito simpáticas, mas muitas deles possuem um ar esnobe que faz qualquer pessoa feito eu se sentir inferior. Para quem já tem complexo de inferioridade nível "Não consigo ir à meetings nem no Brasil", isso é bem desanimador. Não é culpa de ninguém - é apenas a minha percepção pessoal, a de que eu não pertenço ali. Todo mundo falando inglês naturalmente e eu não consegui falar uma palavra, por vergonha, medo de errar, não conseguir formular frases, esquecer vocabulário e tempos verbais, ou às vezes só por simplesmente não entender o assunto da mesa. O evento começou exaustivo para mim e eu tive a impressão de que sem querer acabei prejudicando a Cindy nesse sentido, pois ela me acompanhou o tempo todo. 

Mas enfim, feito o checkin, entramos no salão, as mesas estavam decoradas com velas grandes enfeitadas com fitas da Moi-même-Moitié. Havia um buffet com chás variados, café, leite e 4 tipos diferente de comidas cujos nomes não vou lembrar, mas eram doces e salgados. A gente pegou nossos pratinhos e colocamos nossas comidinhas, momentos depois de começarmos a comer foi anunciado que Mana entraria no salão. Ele entrou em zigue-zague passando pelas mesas. Pra mim foi um momento um pouco awkward pois fez-se um silêncio profundo na sala e ele apenas andou até a sua própria mesa, que ficava no cantinho do salão. Depois disso as staffs da Moitié (tradutora e japonesa) escolheram 3 meninas que elas consideraram serem os melhores outfits. As três estavam vestindo roupas muito simples da Moitié, não possuíam muitos acessórios e uma delas não tinha maquiagem. Eu e a Cindy concluímos que essas pessoas representam melhor a Moitié exatamente por isso, pela simplicidade e elegância. Não é que as outras pessoas não estivessem bonitas e pra ser sincera cada um veste Moitié como quiser, mas em termos de conceito da marca, acredito que um conjunto mais simples representa mais do que um OTT, por exemplo.

Participantes do Teaparty; Fonte: Instagram @artemis_argyi

Depois, foi anunciado que Mana gostaria de nos dar algo de presente. Ele apareceu com um punhado de rosas azuis, fez uma selfie com elas, e depois levantou-se para nos entregá-las. Cada mesa seria chamada para formar uma fila na frente dele, e ele entregaria a rosa para cada participante. Você poderia, também, falar qualquer coisa para ele naquele momento. Cindy falou que ele teve grande impacto na vida dela, que fez muita diferença para ela. Habitualmente, ele fez que "sim" com a cabeça em forma de agradecimento e entregou a rosa. Eu apenas falei que era do Brasil e que gostaria de vê-lo na América do Sul um dia. Ele fez que "sim" com a cabeça e me deu a rosa rs. Em outras palavras, apesar do momento ser muito emocionante, os gestos do Mana são padrões para toda a plebe presente ali. Ele não esboçou reações diferentes em nenhum momento.

Feito isso, ele foi para o cantinho do salão aonde pudesse ter uma visão de todo mundo e fez fotos com o seu celular. Não sei se veremos essa foto um dia...

Selfie do Mana no salão, com as rosas azuis

Participantes da minha mesa!
Minhas coisas assinadas, a rosa azul e o folder da Moi-même-Moitié que ganhamos

 

Mana vai embora...

Bem, verdade seja dita. Mana não ficou muito mais do que 20 minutos no teaparty. Se foi meia hora, foi muito. Depois que ele tirou a foto do salão, foi anunciado que ele iria se retirar do local. Ele caminhou até a porta e se despediu do mesmo jeito gestual que ele se despede em shows. Todo mundo aplaudia muito, é claro! Mas ficar ali não fazia mais sentido pra mim. Eu não sentia fome, na verdade eu sentia muito desconforto e vontade de ir embora. Não conseguia mais entender o inglês da mesa, muito menos falar alguma coisa. Comecei a sentir um pouco de medo das pessoas ali (coisa da minha cabeça) e a Cindy percebeu que eu não estava bem e perguntou se eu queria ir embora, e eu falei que sim. Nos despedimos por alto das pessoas sentadas às mesas e saímos. Fomos em direção do evento para tentarmos pegar os stands abertos. Ao chegar no evento eu imediatamente senti uma necessidade de trocar de roupa. Eu já havia mandado mensagem pro Lucas para ele levar minhas roupas normais pro evento. Quando eu o encontrei, peguei minhas roupas e corri para o banheiro me trocar. Naquele momento senti de verdade que tinha realizado meu sonho e que, mesmo com mais alguns dias para passear em Seattle, iniciou ali novamente a minha vida normal.

Lucas, meu marido lindo que, apesar de não ser fã nem do Mana e nem de eventos, me acompanhou nessa aventura
Minha amiga Cindy, que me acompanhou todo o tempo!





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Como passei na USP e na UNESP para Artes Visuais

Este post no blog é mais um guia para quem está querendo ingressar no curso de Artes Visuais em São Paulo (USP e UNESP). Como eu tive muita dificuldade em encontrar informações específicas sobre esses vestibulares para este curso, resolvi postar para poder ajudar futuros vestibulandos ansiosos como eu.


Vestibular de Artes Visuais da USP

O vestibular de Artes Visuais da USP possui 3 etapas e todas as três são eliminatórias. O curso de Artes Visuais faz parte da Escola de Comunicação e Artes (ECA).


Etapa 1 - Teste de Habilidades Específicas

Esta prova é a primeira que você faz de todo o processo. Ela tem caráter eliminatório, ou seja, se você não passar, não tem direito de prestar o vestibular para Artes (a UNESP é diferente, explicarei depois). Se na sua inscrição você escolheu uma segunda opção, você irá concorrer para essa segunda opção (no meu caso foi História) caso seja reprovado nessa prova (ou falte nela). Essa prova consiste em 2 questões teóricas e 2 questões práticas e ocorre em um dia inteiro... Na parte da manhã você faz a prova teórica, há um intervalo para almoço, e à tarde você faz a prova de desenho.

Preciso saber desenhar? Tenho que ser um Picasso ou Leonardo DaVinci? O que devo estudar?

"Saber desenhar" é relativo. Mas se você quer saber se precisa dominar determinadas técnicas, a resposta é não. Basta verificar os desenhos dos alunos aprovados no curso e descobrirá que muitos possuem uma preocupação com anatomia e perspectiva, já outros são bastante abstratos. Ou seja, não há como afirmar que existe um jeito certo de fazer o desenho, você precisa desenhar aquilo que você acredita ser o ideal. Eu sei que é duro ler isso e eu sei que você quer um guia, mas essa parte realmente não tem como falar exatamente como deve ser. A única coisa que você precisa ter em mente é que a prova tem tempo para ser feita então não vai me inventar de fazer um troço super complexo que no final não vai dar tempo de terminar... Esse não é o objetivo. Não é desenho para exposição no MASP. Tenha isso em mente e faça coisas possíveis dentro da limitação de um vestibular.

Se você está lendo este post com meses de antecedência à prova, eu sugiro fortemente que visite museus e exposições. Já explico porquê.

Bom, para o vestibular de 2018 a prova foi realizada na Poli, a imagem abaixo não é do dia da prova, mas a sala era exatamente assim.


A prova teórica

Na prova teórica, você irá responder 2 questões dissertativas. A primeira questão normalmente é de teoria da arte ou algo relacionado, já a segunda é de cunho pessoal. O trecho a seguir está no Manual do Candidato 2018: 

Na prova escrita, serão avaliados o domínio do candidato de conceitos e teoria da arte e sua capacidade em relacionar artistas, obras e movimentos, como também a clareza e o desenvolvimento do texto.

Essas questões já são uma amostra do que você irá enfrentar na segunda etapa, ou seja, a capacidade de desenvolver um texto claro e coeso, além dos conceitos de teoria da arte. No Manual também há uma bibliografia, se você tiver tempo para dar uma olhada é o ideal. No meu caso tudo foi muito corrido. Eu decidi prestar vestibular já era Agosto e precisava correr atrás das matérias, então deixei pra estudar pras Habilidades faltando duas semanas.

Eu me baseei muito nas provas antigas então resolvi estudar somente vanguardas européias e arte moderna. Também estudei bastante sobre arte moderna no Brasil pois este assunto sempre cai pelo menos na UNESP. Com a polêmica do Queermuseu, eu acabei dando um foco para Lygia Clark e neoconcretismo, mas acabou que não caiu.

Se você não teve tempo ao longo da sua preparação para visitar museus e exposições, é extremamente importante que você ao menos veja vídeos de análises de obras no Youtube. Eu recomendo muito o canal da Patrícia Camargo, ela é ótima para falar de movimentos europeus. Sobre os brasileiros, você vai ter que se esforçar mais, mas tem muitos documentários (alguns bem antigos) no Youtube e sites como do Itaú Cultural (que inclusive estão na bibliografia do Manual) que tem textos muito bons.

Mas moça, pelo amor de Deus, é texto demais, não sei o que ler! 

Se você não pensou a frase acima... bem, eu pensei. E eu quebrei muito minha cuca para filtrar o que eu ia estudar. Lembre-se que História da Arte também cai na prova geral do vestibular! Eis aqui alguns tópicos gerais que talvez possam te ajudar:

Vanguardas Européias
Semana de Arte Moderna no Brasil
Arte Moderna no Brasil
Arte Urbana
Arte Contemporânea

 A pergunta teórica
A prova provavelmente não vai te fazer perguntas simples como "Qual o contexto da obra Guernica e quem a pintou?". Não. Por isso é importante assistir análises e criar um certo senso crítico, pois a prova vai querer que você relacione assuntos ou comente a importância disso ou daquilo para um determinado contexto. Por isso eu falei acima o quão importante é você estar a par de análises de obras, pois as perguntas da prova não são tão óbvias. Mas não se desespere: Se você gosta do assunto (e imagino que goste, considerando o vestibular que irá prestar), o fato de estar analisando obras de arte vai ser muito natural. Tirando algumas crises de ansiedade que me atrapalharam muito devido ao pouco tempo que eu tinha, eu gostei bastante do meu tempo gasto estudando história da arte.

Bem, aqui alguns exemplos das perguntas:

2015
Comente a importância do autorretrato como forma expressiva e dê exemplos de artistas que os produziram, analisando as principais carcterísticas desses trabalhos e sua relevância na história da arte.

2016
Na primeira metade do século XX alguns movimentos atísticos incorporaram à criação da obra de arte elementos provenientes do mundo onírico e do inconsciente, permitindo a muitos artistas explorar um imaginário oculto que a psicanálise começara a investigar no final do século XIX. Comente a importância destes movimentos na história das artes visuais (como também em outras linguagens, se for do seu conhecimento) e discuta artistas e obras importantes a eles ligados.

 A pergunta pessoal 
A segunda questão da prova sempre é uma pergunta pessoal. Aí não tem jeito. Novamente, é necessário você ter estudado análises ou visitado museus, porque mesmo que a pergunta seja algo que você não vivenciou ou não consegue explicar, se as análises de obras de arte (que você não pôde ver ao vivo, digamos assim) causaram algum impacto em você, ainda que pela tela do computador, você consegue escrever. Eu, particularmente, escrevi uma fanfic na prova de 2018 (irei explicar ao final do post, junto com o meu desempenho).

Alguns exemplos:

2015
Quais as relações que você vê entre arte e cidade e quais os artistas que tiveram uma atuação importante no espaço cidade, tanto no passado quanto no presente?

2016
Cite referências importantes de sua experiência pessoal com obras de arte e manifestações artísticas, e comente aquelas que lhe proporcionaram uma vicência marcante. Discorra, a partir dessa sua experiência, sobre a importância de se estudar a linguagem artística na universidade.

A prova prática

Você irá receber duas folhas Canson A3 e folhas sulfite A3 para rascunho. No entanto, se você produzir seu Picasso na folha sulfite, pode indicar para o corretor que o desenho a ser analisado é aquele, ao invés da folha Canson. Quanto a isso as coisas são bem tranquilas, se você errar algo pode escrever para desconsiderar ou que aquilo é rascunho. Se você acredita que todas as folhas dadas a você devem ser avaliadas na correção, também pode indicar isso por escrito em algum cantinho. Eu estava com meu pulso quebrado e fui indicada pelo fiscal a anotar isso na minha prova. Escrevi no cantinho "Desenhos feitos com pulso quebrado e com dor", para que o corretor levasse isso em consideração também.

Trecho do Manual do Candidato 2018:

 Na prova prática será considerada a capacidade do candidato de criar uma representação visual, sua compreensão das relações espaciais, o uso dos materiais e organização do espaço construído, as qualidades construtivas/expressivas da linguagem gráfica.

Ainda que você tenha alguma experiência com desenho, ressalto mais uma vez a importância de ter estudado ao menos alguma análise de obras pois isso pode te ajudar muito na hora de elaborar a sua obra-prima-do-vestibular, especialmente se você estiver preso a estilos como mangá e HQ. Você não precisa ser nenhum especialista, mas ter alguma noção de técnicas e estilos vai te ajudar demais, te garanto. Eu recomendo estudar um pouco de técnicas que você pode aplicar usando grafite e lápis de cor. Eu utilizei a técnica de pontilhismo com lápis de cor e acredito que isso pode ter me ajudado.

Exemplo:

2015
1- Numa das folhas de papel Canson, faça um autorretrato de memória ou de observação (neste último caso, das partes visíveis do seu corpo). Você pode realizar esse trabalho a partir de um único ou de diferentes pontos de vistas e pode também utilizar todos os materiais de desenho solicitados, conforme sua escolha pessoal.
2- Na folha de papel Canson remanescente faça, a partir dos recortes trazidos, uma colagem que também poderá ser combinada com desenhos (a escolha é sua). Esse trabalho deve ser o projeto de uma intervenção artística em um espaço qualquer da cidade que você escolher.

Desenhos de aprovados 2015 (clique para ampliar)












Passei na prova teórica, agora vem a prova geral

Etapa 2 - Primeira Fase

Então você viu o seu nome na lista de aprovados da prova de habilidades específicas, que bom, né? Mas não comemore ainda pois você tem bastante chão pela frente. Agora você precisa enfrentar a famosa primeira fase da Fuvest. Se você acha que vestibular de artes é fácil e não precisa estudar, lembre-se que de 800 pessoas que se candidataram para esse curso, apenas 30 vão entrar nele. Então desce do seu pedestal e vá estudar, especialmente as matérias de Humanas. No vestibular de 2018, eu comecei a estudar em Agosto. Fiz o Cursinho da Poli para ter algum suporte, uma vez que eu tinha 30 anos e formei no ensino médio em 2004.

Sobre o cursinho pré-vestibular (Cursinho da Poli - privado)

O cursinho tem ótimos professores. O material, por outro lado, não é muito completo, então você tem que correr atrás de muita coisa. Mas foi estudando as apostilas do cursinho é que eu escrevi dezenas de folhas de resumo, me ajudando a fixar o conteúdo, sempre complementando com vídeo-aulas do Youtube e exercícios de vestibulares passados. 

Infelizmente, o cursinho também tem seus problemas. Deslocamento, custo com mensalidade, alimentação e transporte e, principalmente, alunos que adoram rasgar dinheiro e vão pra aula para conversar. É péssimo. Em função disso, no último mês de aula eu simplesmente parei de frequentar (indo apenas às quartas para as aulas de geografia do professor Alexandre e do professor Décio, que são absolutamente imperdíveis). Eu paguei a mensalidade mas não ia à aula porque estava muito estressada com a chegada da prova e muitos alunos do cursinho não calavam a p*** da boca, o que agravava o meu estresse e ansiedade. Pedir a eles para fazerem silêncio e respeitar a aula foi algo que fiz várias vezes, mas todo dia era a mesma coisa. Estresse prejudica muito a fixação de conteúdo. Aliás, o estresse e a ansiedade foram meus grandes inimigos nessa fase de vestibular, tomem cuidado com isso.

Todos os cursos da USP ficam com 2 a 3 candidatos por vaga após a primeira fase. Em 2018, foram 19,6 mil candidatos disputando 8,4 mil vagas. Artes Visuais foram 74 pessoas correndo atrás de 30 vagas.



Convocados por vaga

Pontos dos convocados

2,47

Mínimo

Máximo

45
73
 


Caralho, passei pra segunda fase. Estou quase lá... 

...e é nessa hora que sua mente começa a te sabotar: Se eu não passar na segunda fase, terei morrido na praia. Perdido o semestre. Tudo isso que passei para chegar até aqui terá sido por nada. Puta que pariu. CALMA. Eu tenho uma boa notícia pra você: eu passei em 8º lugar SEM ESTUDAR EXATAS. É isso mesmo que você leu. Eu não estudei exatas. Porque? Simplesmente porque não dava tempo mais de aprender exatas, então eu FRITEI em cima de Geografia e História. Literalmente. Passei meus dias fazendo resumos e resolvendo exercícios de Geografia, História e, CLARO, PORTUGUÊS NÉ. Não ignora Português pelo amor de DEUS! Inglês felizmente eu já sabia.

Etapa 3 - Segunda Fase

Depois de conferir o gabarito da primeira fase, caso você tenha notado que está na segunda, meu querido, este é o momento em que você vai fritar na cadeira de estudar. Eu acredito que nesse intervalo entre a primeira e a segunda fase é que se separa o joio do trigo: aqueles já certos de que estão dentro e relaxaram com certeza não terão condições de passar no vestibular. Aqueles que se turbinaram e decidiram que agora é a hora, vão aproveitar cada momento possível para fazer exercícios e revisar tudo o que puder para fazer uma boa prova dissertativa. Tudo isso, claro, considerando que esses candidatos aprovados pra segunda fase possuem infra-estrutura e saúde mental para enfrentar tudo isso, afinal de contas não estou  fazendo ressalvas da situação socioeconômica e mental de cada um. Eu sei que pessoas que se esforçam também não passam, mas tenha em mente que a minha mensagem é que, se você não estudar direito e espera passar mesmo assim, acho melhor parar de se iludir. E se você passou sem estudar muito é porque com certeza alguma base do conteúdo você já possuía, algo que não era verdade para mim, que estava absolutamente desesperada para assimilar a maior quantidade de conteúdo possível.

Bem, como você deve ter lido acima, eu não estudei exatas. Então sim, dá pra passar na USP para Artes Visuais sem ter aprendido progressão geométrica, balanceamento de equações e mecânica. Mas se você escolher esse caminho, você precisa assumir seu compromisso com as matérias de Humanas. Não vá falhar com elas! A Literatura também é muito importante, então faça-me o favor de ler os livros ou, pelo menos, se enterrar nas análises e resumos deles. Você quer ou não quer entrar no curso?

Vou surtar se não conseguir calcular minha Nota Final!

Pois já pode ir surtando porque você não vai conseguir mesmo. A Nota Final dos candidatos dos cursos que tem prova de habilidades depende também da nota... na prova de habilidades. E você não vai ter acesso a essa nota até sair o resultado geral do vestibular. Então pode sentar e chorar porque você vai ter que esperar o resultado final para saber se você foi bem mesmo.

Meu desempenho na FUVEST 2018

Você verá abaixo que eu optei pelo INCLUSP para ter bônus da escola pública. Apesar de ter utilizado a cota na qual tenho direito, percebi que poderia ter passado mesmo sem ela. Por isso, acredito que meu desempenho é válido também para aqueles que irão tentar as vagas de ampla concorrência.

Minha nota na Prova de Habilidades Específicas foi 75. Foi uma prova bem diferente do que eu havia estudado. Vou descrever a prova de memória, mas em breve ela com certeza estará disponível no site do CAP (Departamento de Artes Plásticas).

O tema da teórica foi "viajantes". A primeira questão perguntava como fotógrafos, pintores e outros viajantes contribuíram, entre os séculos XV e XIX, para a construção de uma identidade nacional no Brasil. Difícil, né? Eu achei difícil. A segunda questão perguntava sobre uma viagem ou passeio que você tenha feito que te inspirou a produzir arte. Essa viagem poderia ser para outra cidade, estado, país ou poderia ser um passeio na sua própria cidade também. Ficava seu critério escolher.

Minha resposta para o item 1 focou muito no eurocentrismo pois os registros do Brasil que conhecemos foi feito, claro, pelos europeus, e que isso dificulta a criação de uma identidade nacional até hoje. Minha resposta para o item 2 foi uma fanfic, infelizmente. Eu estava escrevendo sobre minha ida na Bienal mas resolvi falar que eu tinha ido pra Inhotim (nota: a prova foi antes das notícias de lavagem de dinheiro). Digamos que, sabendo que a academia é focada em arte contemporânea (obviamente) eu quis bater uma punheta pra arte moderna no meu texto e descrevi Inhotim como se tivesse ido lá, já que eu havia estudado algumas obras do local para ter conteúdo pra prova e poderia falar delas com propriedade. Pois é, eu menti, mas vestibular é vestibular, né. 

A prova prática foi autorretrato e um parágrafo do Guimarães Rosa: A Terceira Margem do Rio. Como eu sou ignorante em Guimarães Rosa eu não conhecia o conto, mas precisava ilustrar o trecho. Ele descreve a partida do pai de canoa e o seu filho o observando na margem do rio. Para dar algum diferencial pro meu desenho, eu fiz ele com pontilhismo.




Vestibular de Artes Visuais da UNESP 

O vestibular de Artes Visuais da UNESP tem 3 etapas, mas a prova específica não é eliminatória para o vestibular geral (como ocorre na FUVEST). Já começo dizendo que não fui tão bem na UNESP quanto na FUVEST e se não fosse a cota da escola pública, eu estaria em 62º da classificação geral (de 40 vagas). Então acho melhor você se esforçar bem mais do que eu, mesmo porque, as provas da UNESP são mais fáceis que da FUVEST, por isso muita gente vai bem nelas (não estou me referindo à prova específica e sim a primeira e a segunda fases).

Vale dizer também que as etapas da UNESP foram bem próximas uma da outra. A segunda fase foi em Dezembro, colado com a prova específica, enquanto da FUVEST foi só em Janeiro. Por isso a UNESP pra mim foi bem mais corrida. Mas se você está se preparando desde o início do ano, isso não será um problema.

Etapa 1 - Primeira Fase

Se você achou que a primeira fase da UNESP era fácil comparado com FUVEST, achou certo, otário! Sim, é verdade, pode descansar seu coraçãozinho ansioso. Mas isso não é motivo para relaxar, viu? Meu desempenho na UNESP foi ruim porque eu deixei pra estudar mais de última hora (não façam isso, pelo amor de deus. não deixem pra última hora) e não deu tempo de ver todo o conteúdo antes da segunda fase. Mas pra você ter uma ideia, na primeira fase da FUVEST eu fiz 49 acertos e na UNESP foram 56. Como consequência da prova ser mais fácil, a nota de corte também é um pouco maior. Porém, se você estudar bastante para essa prova, terá condições de obter uma ótima nota e ampliar suas chances de conseguir sua vaga. Não subestime a UNESP, lembre-se que além de você, muita gente também vai achar a prova fácil.

Se você não passar na primeira fase, não vai fazer o teste de habilidades específicas.

Etapa 2 - Teste de Habilidades Específicas

E aí, tenho que ser o próximo Vik Muniz para passar na específica da UNESP? 
Se você não sabe quem é Vik Muniz, volte duas casas. É isso aí. Para fazer uma prova legal na UNESP você tem que estudar artistas brasileiros. Pegue todo conteúdo de História da Arte que você tá fritando pra FUVEST, que inclui também arte moderna no Brasil, e adicione especificamente artistas brasileiros modernos e contemporâneos. Memorize obras, movimentos, nomes principais. Se der, visite exposições (sinto que estou sendo repetitiva...). Enfim, a UNESP quer de você duas respostas teóricas e dois desenhos.

A prova teórica

As primeira pergunta vai ser bem conteudista. Isso quer dizer que ela vai perguntar a você conteúdo mesmo, coisa que você tem que ter estudado. De 2016 a 2018, a primeira questão pedia para relacionar a coluna da esquerda com a da direita, sendo que em 2018 pediu pra relacionar o artista à obra correspondente. Veja a prova de 2017:

Dá um pouco de medo, né? Se você desconhece esses artistas, realmente dá um medo. A prova de 2018 foi exatamente assim, porém com outros artistas e suas respectivas obras. Eu acertei apenas um.

A segunda questão teórica pode variar. Pode ser pessoal mas pode exigir um pouco mais também. Se você olhar as provas anteriores poderá verificar melhor. Em 2018 a questão pedia para descrever uma obra na qual o autor tenha feito uso de máquina. Vale lembrar também que a prova geralmente é temática, esta de 2017 acima, se você notar, verá que são autorretratos, e a segunda questão desse ano pedia que o candidato descrevesse um autorretrato que ele tenha visto (tirando os que aparecem na prova, claro). Em 2018 o tema era máquinas, então as obras tinham a ver com isso também, e a segunda questão pedia para comentar uma obra dentro do tema. Eu comentei sobre o Vik Muniz porque além dele ser famoso e fácil de memorizar, ele realmente utiliza máquinas (fotográficas) para registrar suas obras de arte. Válido, né?

A prova prática

A prova prática também foi tematizada dentro de "máquinas" no vestibular 2018. A primeira questão pedia para desenhar, usando material preto e branco, uma máquina que você tenha visto naquele dia de manhã. A segunda questão pedia para desenhar, usando material colorido, uma máquina que estivesse dentro da sala de aula. Na questão um, eu desenhei meu próprio celular, mas aproveitei para fazer um desenho de observação e incluir minhas mãos. Eu apoiei minha mão na mesa e a desenhei segurando um celular. Na questão dois eu desenhei o retroprojetor, mas para dar um diferencial, eu fiz os "raios" de luz RGB saindo dele.


Etapa 3 - Segunda Fase
Chegar na segunda fase da UNESP, na minha opinião, foi psicologicamente mais suave do que na FUVEST. Isso porque foi tudo muito rápido, antes do Natal tudo já tinha acabado. É como um corte limpo de faca, uma morte instantânea e indolor, sabe? E pelo menos a prova de habilidades específicas não te elimina e sim acresce nos seus pontos da nota final. Mas enfim, chegando aqui, você precisa se esforçar um pouco mais. Como eu disse lá em cima, minha colocação não foi boa pois eu NÃO estudei exatas. E a prova de exatas da UNESP é totalmente fazível para tapados das humanas feito eu. A FUVEST não perdoa quem não sabe, mas a UNESP ainda dá uma chance, entende? Por isso você tem que ir melhor, especialmente biologia e matemática, que na minha opinião foram as matérias mais fáceis das provas.

Meu desempenho na UNESP

Não há muito o que explicar sobre o desempenho, apenas vejam o quadro abaixo:

É isso aí. Espero ter sido de ajuda à você!